Saudade
Saudade é uma palavra que só existe na língua portuguesa. Mas acho que nem mesmo os portugueses a utilizam como nós, brasileiros. Percebi que temos a saudade no nosso vocabulário cotidiano porque esse sentimento está para nós brasileiros como o queijo para o vinho (analogia muito italiana...) Talvez seja pretensioso dizer que isso seja um privilegio nosso, mas sinto que somos fadados, mais do que qualquer outro povo do Novo Mundo, desde sempre à saudade.
séculos e séculos de Firenze, os castelos de 1000 anos da Calabria e penso: O que todos esses séculos de historia ensinaram a esse povo? A ser mais tolerante? A admirar e seguir os exemplos que tiveram? A viver a vida dia após dia, a buscando uma maneira de ser feliz? A sorrir diante das dificuldades (e eles tiveram muitas)? Nada disso. Vejo um povo egoísta, intolerante, preconceituoso e sem respeito pelo passado. Sim, respeitam as obras de arte e as relíquias, mas não são capazes de respeitar seu passado recente, como por exemplo quando tiveram que partir para o Novo Mundo há 100 anos porque não tinham o que comer aqui. Tratam os imigrantes como a pior praga possível, e se esquecem que quando eles chegaram no Brasil, nos Estados Unidos, nos outros paises europeus, foram recebidos, tiveram trabalho, respeito. Sim, tiveram dificuldades, mas quem não as tem? Pergunte a um bisnonno italiano que mora no interior de São Paulo se ele quer voltar pra Itália. A resposta provavelmente será: "sim, gostaria de ver minha terra, de morrer na minha terra". Mas pergunte se ele trocaria sua vida brasileira por uma vida em seu país. Duvido muito, depois do que eu vi aqui, se a resposta será sim. São capazes de serem intolerantes com seus próprios compatriotas, de tratarem como "estrangeiros" os italianos do sul que vão ao norte em busca de trabalho, de colocarem cartazes nos hotéis de Torino dizendo "não se aceitam cães e meridionais", de não alugarem casas para os meridonais, de lhe pagarem menos do que vale seu trabalho (se bem que em São Paulo a coisa não é muito diferente com os nordestinos...). Uma vida sem alegria é o que vejo aqui. As pessoas não sorriem como nós. Claro, sorriem das piadas, têm seus momentos alegres, mas não levam a vida com um sorriso no rosto, prontos pra enfrentar um outro dia. Eu sei que não se pode sorrir diante da miséria, da fome, que esses problemas que temos deveriam nos fazer chorar e não sorrir. Mas se não tivéssemos dentro de nós essa alegria inata, essa disposição pra enfrentar as coisas, seria ainda muito pior. O povo brasileiro tem uma estranha característica, estranha pra todo mundo que vê pela televisão as imagens de um país que sofre com a situação econômica, mas e capaz de acreditar ainda. Somos um povo cheio de esperança, e por isso somos estranhos...A alegria do Brasil os fascina, e agora fascina também a mim. Meu amigo Carlo, que vai ao Brasil a cada três meses e quando volta fica deprimido até chegar a data da nova viagem, me pergunta sempre: "Che cazzo sei venuta a fare qui???????????". Não sei a resposta, mas concordo com ele em uma coisa. Um brasileiro aqui, pouco a pouco, vai se tornando cinza, vai perdendo suas cores, seu sorriso. Só volta a brilhar se vê uma outra bandeirinha verde-e-amarela, melhor ainda se um monte delas. E claro que essa é a minha experiência, vejo as coisas assim até porque deixei o Brasil por uma escolha minha, e não porque não tinha oportunidades ai. Sei que muitos daqueles que vieram porque o Brasil não podia lhes oferecer mais nada estão bem aqui, se tem trabalho e uma vida digna (se é que trabalhar 10-12 h por dia, seis dias por semana, ganhando dois terços do que ganha um italiano, morando em um ap de 60m com mais cinco pessoas, tendo que mandar dinheiro pro Brasil e ainda pagar 10 reais numa lata de coca-cola, se pode considerar uma vida digna.) Mas no fundo, mesmo quem se deu bem sonha sempre em voltar. 



Eis aqui onde estou, na região da Campania e na cidade de Salerno.